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Naultinus, gênero de lagartixas endêmicas da Nova Zelândia, ameaçada pelo comércio indiscriminado de animais silvestres. Foto: Wikimedia Commons.

Naultinus, gênero de lagartixas endêmicas da Nova Zelândia, ameaçada pelo comércio indiscriminado de animais silvestres. Foto: Wikimedia Commons.

O final da primeira semana de reuniões da CITES trouxe ao menos umas poucas boas notícias para um grupo de espécies pouco lembradas, mas criticamente ameaçadas por mais uma faceta da futilidade humana: o tráfico de animais roubados da natureza para virarem “mascotes”. Em decisões muito importantes para répteis e anfíbios vitimados por esse tráfico, a Conferência das Partes da Convenção encaminhou a aprovação da inclusão, em suas listas de restrição e controle de comércio, de várias espécies de tartarugas de água doce da Ásia e de um gênero de lagartixas endêmicas da Nova Zelândia, Naultinus.

Tanto as tartarugas como estas lagartixas são parte de um gigantesco comércio em que traficantes europeus, principalmente alemães, são o pesadelo das autoridades de conservação da fauna e das alfândegas de vários países. Feiras realizadas na Alemanha e outros países são anunciadas pela internet e os animais das espécies mais raras acabam sendo vendidos por centenas ou mesmo milhares de euros; sem a proteção da CITES, os governos europeus não tinham base legal para agir. O pior de tudo é que mesmo na mão dos “colecionadores” que se acham conhecedores das exigências de alimentação e cuidados com estas espécies raras e ameaçadas, os animais traficados experimentam mortalidades num ritmo bestial, já que muitos têm nichos ecológicos muito particulares e as suas condições de vida são dificílimas de reproduzir mesmo em zoológicos especializados. Assim, répteis e anfíbios comprados a peso de ouro acabam no lixo doméstico de algum tarado criminoso que não se importe de botar fora, ao mesmo tempo, seu dinheiro e nosso planeta.

Há poucos anos isso ocorria principalmente com papagaios e araras da América Latina; demorou até a CITES decidir pela proteção das espécies mais ameaçadas, e o poder dos traficantes era tal que conseguiu ao acabar, nas barbas do IBAMA, com as últimas ararinhas-de-Spix que viviam na nossa caatinga, e hoje vivem em criadouros nos Emirados Árabes, Ilhas Canárias e outros destinos do tráfico de fauna; o ICMBio hoje faz frenéticos esforços para coordenar ações visando, quem sabe um dia em que o país seja um pouco mais capaz, reintroduzir essa espécie no seu ambiente hoje deserto dos seus vôos antes espetaculares. No Brasil atual, aranhas e cobras sofrem sina similar, volta e meia aparecendo dentro de sapatos ou fundos falsos de europeus raramente apanhados com a boca na botija contrabandeando nossa biodiversidade.

Visita ao Parque Nacional de Khao Yai, refúgio de elefantes

Os heróis da floresta de Khao Yai não apenas são uma inspiração para que os quase dois mil delegados à CoP16 da CITES repensem junto a seus países essa aberração que é o tráfico e a matança de fauna e flora ameaçadas, quando ao redor do mundo cada vez fica mais claro que protegê-los é o que dá dinheiro

O sábado de folga do frenesi político no Centro Nacional de Convenções de Bangkok foi passado por alguns delegados a poucas horas da capital, em um lugar tão diferente que poderia estar em outro planeta: o Parque Nacional de Khao Yai , o primeiro da Tailândia e uma verdadeira joia natural onde vivem cerca de 400 elefantes, bandos de gibões e uma cornucópia de aves e outras espécies aninhadas entre suas escarpadas montanhas. Aqui, seu superintendente, Krissada Homsud, recebeu os delegados à CITES para mostrar o êxito da conservação e do uso ecoturístico das espécies selvagens. O Parque conta com 400 funcionários para gerenciar e patrulhar seus 216.800 hectares, parte de um Sítio do Patrimônio Mundial reconhecido em 2005 e que abrange também outras áreas protegidas contíguas, e também para receber adequadamente seus mais de 800.000 visitantes/ano, que asseguram tanto os recursos financeiros para sua manutenção como o apoio político para sua existência e do sistema tailandês de parques nacionais – algo que os chefetes partidários e os burocratas dos órgãos ditos ambientais brasileiros ainda não aprenderam, apesar de tantos exemplos similares de sucesso.

Krissada Homsud, superintendente do Parque Nacional de Khao Yai. Foto: José Truda.

Krissada Homsud, superintendente do Parque Nacional de Khao Yai. Foto: José Truda.

Foi de emocionar até este cético e cansado ativista o entusiasmo com que Homsud falou de sua missão de proteger o Parque. E uma alegria constatar que a insidiosa poluição dos burocratas acadêmicos, como aqueles que vão à CITES apoiar o tráfico de fauna e flora e à Comissão da Baleia fazer lobby pela continuidade da caça aos cetáceos, não impediu que aqui seja um engenheiro alemão, Andy Merk, de 52 anos, que sem treinamento científico formal seja um dos maiores colaboradores técnicos do Parque e o grande estudioso e protetor dos elefantes. Igualmente entusiasmado, Andy mantém um blog sobre a fauna ímpar de Khao Yai e é uma enciclopédia ambulante sobre os elefantes locais.

Os heróis da floresta de Khao Yai não apenas são uma inspiração para que os quase dois mil delegados à CoP16 da CITES repensem junto a seus países essa aberração que é o tráfico e a matança de fauna e flora ameaçadas quando ao redor do mundo cada vez fica mais claro que protegê-los é o que dá dinheiro, mas ainda um motivo de vergonha para os ambientalistas de botequim que seguem defendendo que as “comunidades afetadas por áreas protegidas” ganhem direitos de predação sobre elas e sua fauna, como ocorre, escandalosamente, com as “Reservas Extrativistas” brasileiras e mesmo Parques Nacionais como a Lagoa do Peixe, um santuário único e inestimável de aves migratórias onde o turismo é desprezado e desestimulado mas os pescadores “tradicionais” são tolerados,  predando a fauna aquática e espalhando quantidades pornográficas de lixo nas proximidades de seus malcuidados tugúrios. Questionados sobre os potenciais conflitos entre os elefantes e a agricultura de pequena escala que ocorre no entorno do Parque – já que eles regularmente saem dos limites protegidos e se banqueteiam com milho e outras plantações dos vizinhos – eles responderam que os problemas são mínimos, porque, graças à visitação, o Parque e seus elefantes geram tanto dinheiro para as comunidades do entorno através do turismo que ninguém pensaria em matar um elefante por isso. Uma lição desta vez não aprendida, já que não havia nenhum delegado de governo brasileiro na excursão ao Parque oferecida gratuitamente pelo governo tailandês.

É possível, claro, que todos estejam ocupadíssimos, trabalhando ativamente para conseguir os apoios ainda faltantes às propostas brasileiras de restrição do comércio de tubarões e raias-manta, que serão discutidas e votadas nesta segunda-feira.